FÁBULAS MINORITÁRIAS

O Estranho Caso do Dr. Keize

Por Mino

06 de Abril de 2020

Ilust. O estranho caso do Dr. Keise.jpg

     Dr. Keise estudava a origem da vida, na ânsia de compreender o sentido da existência.

     Diante do fato incontestável da impermanência, debruçou-se sobre o porquê de tudo, sem encontrar a causalidade ancestral.

     Tempo e espaço, para ele,  passaram a ser coadjuvantes nessa peça em que o ser e o não ser resumiam a essência da questão.

     O Dr. Keise, cético e frio, reputava o acaso como autor da criação e a explosão do começo como responsável pelo universo em expansão. Mais na frente, Keise encontrou mais razões para aceitar a teoria do cosmo pulsante, segundo a qual todos esses sistemas formados por estrelas e planetas contraem-se e dilatam-se como um imenso coração.

     Dr. Keise era um cientista investigativo, um Sherlock Holmes da ciência, e todas as suas deduções deveriam basear-se em fatos e na comprovação laboratorial de todas as teorias.

     Nesse laboratório virtual de sua vida, Keise desprezou a possibilidade da improbabilidade e relegou a fonte mística e a ciência como meros atores e dançarinos que não podem representar e dançar no mesmo palco.

     Perdido no caos gerador da ordem, na ordem desfeita em nome da nova ordem e no círculo da construção e destruição de tudo que se renova, desistiu do caso no meio da investigação.

     Apenas chegou à conclusão de que a morte tem causa, visto que tudo, ao morrer, tem causa mortis. Mas a vida, assombrou-se Keise, mesmo  oriunda do acaso,  como pensava, não é casual.

     E concluiu, atônito e sem certezas, a sua investigação, em seu filosófico-científico laudo pericial:

     - Morre-se porque vive-se.

     Viver é que é fatal.