FÁBULAS MINORITÁRIAS

Um Pintor a Rigor

Por Mino

29 de Março de 2020

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     Ele só pintava bem vestido... De smoking, fraque, cartola, sapato bico fino e bengala, cravo encravado na lapela e lenço exposto no bolso. 

     Seu traje quase sempre era passeio completo. Pintava a modelo nua que pousava, de gravata e de terno. Mesmo pintando o sete, vejam só, pintava de paletó. Não seria ele o que a gente denominaria de um pintor moderno? 

     Era, na verdade, meigo e carinhoso, sensível e terno. Só utilizava suaves cores, delicados tons, extraídos da natureza viva de sua paisagem interna. Fino e educado, não se sujava com as tintas que usava. Um nobre pintor, um perfeito cavalheiro, um artista verdadeiro de postura fidalguíssima. 

     Certa vez, pintou uma mulher belíssima, uma madona, cria de sua classuda e elegantérrima imaginação. 

     Casou-se, inclusive, com ela, por causa certamente dessa pictórica paixão. 

     Mas, mesmo no lúdico mundo da poesia nem tudo é rima.

     Seria porventura o mundo da pintura uma exceção? 

     Descobriu mais tarde que o seu casamento não passava de uma amizade colorida emoldurada pelo devaneio de sua razão. 

     E assim, divorciou-se o pintor da mulher de seu primeiro quadro, para juntar-se em seguida com a sua obra prima, uma nova mulher pintada na mesma tela, por cima. 

     Viveram felizes para sempre, um novo amor de cores fortes, dia após dia, mês após mês. 

     Ela, sempre a lhe sorrir com seu sorriso de Mona Lisa, pendurada na parede da sala. 

     Ele, sempre preso aos retoques intermináveis de sua arte final, no mesmo ritmo e compasso com as quais DALI pintava GALA... 

     E com o mesmo viril vigor das pinceladas de Picasso.

     Dia após dia...

     Passo após passo...